Acerca do post "Convites"

Partilho no essencial das preocupações do Daniel face à "pessoalização" e "feudalização" dos meandros do saber em Portugal, fenómenos que se manifestam na preponderância do factor-convite e do factor-conhecimento na definição de painés de conferências e elencos de colaboradores de revistas. Ainda a propósito das conferências, gostaria de chamar a atenção para o carácter muitas vezes cerimonial que estas assumem. Observe-se a panóplia de rituais, protocolos e procedimentos oficializados que rodeiam qualquer iniciativa: os cumprimentos, as hierarquias, os trajes formais, as vassalagens, os «portos-de-honra» e os «coffee-breaks», que fazem com que em Portugal uma conferência seja, acima de tudo, um acontecimento social.

Na verdade, a grande maioria das pessoas vai a estas coisas essencialmente para ver e ser visto, para se integrar no círculo, para se mostrar, para propiciar uma eventual oportunidade.
Uma conferência tem tanto de missa (com os sacerdotes, os acólitos, a homilia, os momentos de crise e purificação) como de adro de igreja em dia de missa (com as conversas, os olhares, as confidências e inconfidências, o habitual «louco»), o que faz com que o debate académico seja relegado para segundo plano e, necessariamente, perca qualidade e envolvência.

Sem querer entrar em derrotismos (até porque, não esqueçamos, os autores deste blog são jovens investigadores lutando pelo seu «lugar ao sol» no sistema), aventuro-me a dizer que fazia falta um pouco de «ética protestante» que mitigasse este excessivo peso do cerimonial. Como organizadores e participantes deste tipo de eventos (e eu já organizei muitos, e sei que o critério de sucesso nunca foi a qualidade do debate mas o número de pessoas na assistência ou o impacto mediático), faríamos bem em repensar naquela máxima da Bíblia (não sei citar de cor) que dizia que «onde quer que estejam dois ou três reunidos por minha causa, eu estarei presente».

Relaxem, portanto, os nós das gravatas, ou deixem ficar as gravatas se preferirem - mas abram a mala dos livros e dos blocos de apontamentos e, já agora, mantenham também em aberto a vontade e a predisposição para aprender.

[João]
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