Re:

Agradeço-te, Paulo, os comentários ao meu post, que só o enriquecem. Suscitam-me algumas observações (necessariamente esquemáticas):

1- concordo, no geral, com o teu ênfase no "capital humano" (embora discorde do termo, que traduz uma visão economicista e instrumental) e nas críticas que colocas à inexistência de um espaço público de discussão, hoje em dia composto por uma rede acomodada de comentadores-catedráticos e catedráticos-comentadores - uma rede fechada, exclusivista, e na qual imperam (salvo excepções) a agitação política, a busca de atenção mediática, a ambição materialista e o desfilar dos rosários de ressentimentos e invejas. Talvez as nossas críticas sejam apenas o resultado do natural ressentimento de jovens outsiders que não conseguiram ainda o seu lugar ao sol, mas parece-me que as críticas que veiculamos são pertinentes: a discussão política em Portugal tem sérios défices, não só nos seus aspectos de profundidade e abrangência, mas também na forma como mobiliza e envolve os sectores da vida social portuguesa.

2- daí a minha crítica ao "centro": porque o centro surge exactamente como esse pântano no qual tudo permanece por discutir, e no qual a vida democrática (que poderia ser tão mais profunda e imaginativa...) se resume a um processo cíclico de selecção e expulsão de aparelhos partidários, que sazonalmente colocam novos nomes nas listas e mudam de visual.

3- A discussão política faz-se através do confronto, e não do consenso. Obviamente, as tomadas de decisão política necessitam de consensos e a vida política necessita de estabilidade. Mas o consenso não pode tornar-se num dogma enquistado, porque ele não é mais do que a expressão contingente de um determinado balanço de forças. O único equilíbrio verdadeiro que se pode alcançar surge do confronto entre duas ou mais forças - algo que não acontece no centro, porque no centro a política resume-se à resolução de problemas no seio de um status quo que é tomado como natural e necessário. Não dizes que um prato está em equilíbrio se ele se encontra poisado no chão.

4- Dizes que é no centro que se encontra a praxis da tradição política. O argumento da tradição é exactamente aquilo que se pretende desafiar. É exactamente contra esta tradição que é necessário deixar o centro - que sempre foi uma metáfora para o imobilismo e conformismo. A política não tem necessariamente de assumir uma divisão estrita direita/esquerda (porque são essas demarcações que possibilitam e alimentam a névoa do centro), mas pode e deve ser visto como uma multiplicidade de lutas e confrontos, uma rede de interacções que, no entanto, não invalida que haja opções políticas claras e escolhas normativas sobre o que somos e o que queremos ser (por exemplo, a inspiração social-democrática vs. a inspiração liberal-democrática).

[João]
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