O que é o centro?

O que é o centro? O que é esse território indeciso, deambulante, onde Cavaco Silva e José Sócrates foram buscar a maioria absoluta? O centro é um grupo de pessoas? O centro é uma ideia? O centro é uma ausência de ideias? Serve este 'post' para levantar um conjunto de questões sobre o centro político em Portugal.

Parece ser no centro que se decidem as eleições. Isto faz com que os dois grandes partidos portugueses (e o pequeno partido que de repente se tornou "de poder") adequem os seus programas e as suas actuações tendo em vista cativar o centro. Nada de radicalismos, nada de "derivas esquerdistas" ou "derivas neo-liberais" - o centro assemelha-se ao "justo meio" aristotélico, à "razoabilidade", a uma espécie de "objectividade científica" - verdade localizada temporalmente e ainda assim absoluta. A disputa eleitoral dos dois grandes partidos assemelha-se aos esforços de um artista de circo que se afadiga mantendo pratos a girar em cima de varas.

Seduzir sem alienar, portanto. Manter uma ilusão de fidelidade ao mesmo tempo que se recorre intensivamente a "piscares de olhos". Mas será o centro uma donzela entediada, de humores imprevisíveis, distante mas constantemente disponível para ser cortejada?

É interessante verificar como este centro se mobiliza sazonalmente para sacudir governantes considerados maus, para promover uma "mudança" dentro dos mecanismos (esotéricos) da "alternância". Onde está a postura crítica do centro que se levanta para expulsar um partido do poder, e que quatro anos depois (ou menos) se levanta para o colocar de novo no poder - e sempre com a convicção de razão, de verdade, de necessidade? Uma mudança deste calibre (que comporta necessariamente uma mudança na concepção do que é "verdadeiro" e "bom") significa para os eleitores portugueses uma nova oportunidade, uma nova esperança - um resquício de sebastianismo, um começar de novo, um lavar de cara, uma folha branca... numa ilusão que é construída para ser desfeita. Durante dias ou semanas após as eleições, até parece que se respira melhor. Fazem-se planos. No fundo, e ainda que nem todos o admitam, há uma espécie de sonho que se instala - uma atmosfera natalícia de antes de abrir os presentes.

Por pouco tempo, infelizmente. Depois, os resultados da mudança não se apresentam como palpáveis e da esperança passa-se rapidamente para o desespero. O centro consome políticos, fá-los desfilar numa voragem que mastiga e deita fora rapidamente. A necessidade portuguesa de construir ídolos só é comparável à necessidade de os destruir, de os restituir ao tamanho médio, comum. Uma das maiores contribuições do Antigo Testamento para o imaginário português são os "pés de barro".

A preponderância deste centro é o resultado da ausência de debate político sério e sustentado. As decisões eleitorais tornam-se reféns de estímulos pragmáticos de rejeição e de aclamação. Nas palavras de José Gil, Portugal é o país da "não-inscrição", da não-memória: o que era mau há uns anos (PS) é agora providencial, ainda que não tenham mudado muito as ideias nem os nomes. Apenas o tempo fornece a roupagem de novidade, e apenas a vontade de começar de novo outra vez, de ter outra oportunidade, explica a aceitação de um novo-que-é-velho. Encontramos aqui similitudes com a voragem consumista própria das sociedades capitalistas avançadas: o processo político e eleitoral avança por períodos de "desenjoamento" e de "relançamento de produtos". A alternância como desenjoamento significa muito simplesmente que não há um projecto político, mas apenas períodos de tolerância e de nojo. Mas algo se passa para além disso, porque o mundo é orientado numa determinada direcção. E para essa acção existem actores, mais ou menos conscientes disso.

Convenhamos que, para além do centro, existem pessoas. Pessoas desempregadas, pessoas com fome, pessoas sem perspectivas de vida, empobrecidas, embrutecidas, condenadas a uma vida de linhas de montagem (a linha de montagem do emprego e a linha de montagem do centro comercial e do lazer empacotado) - em suma, pessoas para as quais a política se tornou uma realidade alheia de tricas e escândalos, à qual não podem prestar mais atenção do que os cinco minutos do telejornal, porque estão demasiado cansadas a tentar sobreviver. No cerne dos estímulos pragmáticos estão pessoas que querem ter uma vida feliz, sossegada, com um mínimo de escolhas e possibilidades nas suas vidas. Não admira portanto que a política se processe (e se afunde) numa sequência de rejeições - como um amante que, de desilusão em desilusão, deixa de acreditar no amor.

Qual é a saída de tudo isto? É necessário, na minha opinião, e por mais que custe, deixar o centro, ou reconstruir o centro. Porque o centro, mais do que evidenciar o vazio de projectos políticos e consagrar a política como navegação de cabotagem (ou pior, como um barco à deriva no meio da tempestade), contribui para a manutenção de um projecto político subreptício, insidioso, e que se instala no mundo globalizado tendo em vista a uniformização e a subordinação dos mecanismos políticos aos mecanismos do lucro, do mercado, do cidadão como cliente, da liberdade consumista, da razão instrumental, da consciência impedida.

É necessário reafirmar as diferenças entre esquerda e direita e, mais do que isso, dizer que uma é melhor que outra. É necessário que essa diferença se assuma ao nível concreto da condução de políticas, que terão de fazer mais do que cálculos de calendarização tendo em vista a gestão da simpatia. No centro há neblina, há esperança difusa e inconstante, há frustração e incapacidade de levar as coisas até um certo patamar de consistência. O politicamente correcto é, muitas vezes, social, cultural e economicamente letal. Dizer que é no centro que há moderação é uma falácia - é o mesmo que dizer que só nos braços maternos há segurança. A política implica coragem e decisão; comporta sempre riscos, mas estes podem ser contidos com sensatez e com espírito pluralista e democrático.

A política necessita de uma certa elevação sobre o pântano do apetite, do humor, do instinto básico. Ao mesmo tempo, a política necessita de uma concepção de que este não é o melhor dos mundos possíveis. Para além do centro, necessitamos de projectos claros que assumam escolhas normativas, de perspectivas desapaixonadas do que somos e perspectivas apaixonadas do que queremos ser. Romain Rolland e Antonio Gramsci falariam de "um pessimismo do intelecto, e um optimismo da vontade".

[João]
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