Freitas do Amaral comparou Bush a Hitler?

No seu artigo de 12 de Setembro de 2002 («A extrema-direita no governo dos EUA», revista Visão) e no seu livro Do 11 de Setembro à Crise do Iraque (Lisboa: Bertrand, 2003), Freitas do Amaral articula argumentação tendo em vista classificar o actual regime dos EUA como uma «extrema direita legal». Reportando-nos ao livro (em especial pp.12-20), invoquemos as razões deste paralelismo:
1- o «nacionalismo exacerbado», que leva ao deprezo e/ou utilização instrumentalista do Direito Internacional;
2- uma perspectiva messiânica de controlo e dominação do mundo, por forma a espalhar o «american way of life»;
3- o desprezo pela ONU e pelas instituições internacionais;
4- o tratamento dado aos talibãs e guerreiros da Al-Qaeda capturados;
5- a criação, por decreto Executivo, de tribunais para julgar e condenar indivíduos suspeitos de práticas terroristas;
6- a promiscuidade entre Estado e religião;
7- a pressão exercida sobre os meios de comunicação social e a instauração de uma verdadeira censura prévia em matérias relativas ao terrorismo, por razões de «segurança nacional»;
8- a condução da política orçamental no sentido de aliviar a pressão fiscal sobre os ricos e a diminuição de despesas sociais;
9- o facto de esta administração se considerar herdeira da tradição «conservadora» americana - esclavagista, elitista e racista.

São estes os critérios que permitem a Freitas do Amaral estabelecer um paralelismo entre a administração Bush e os regimes de extrema-direita que surgiram durante o século XX. E sim, Freitas do Amaral cita o regime nazi (três vezes), mas cita também Salazar (duas vezes), o regime fascista italiano (uma vez), Franco (uma vez) e Pinochet (uma vez). No entanto, reduzir a argumentação de Freitas do Amaral a uma comparação entre Bush e Hitler é um sinal mais da cultura de almanaque, uma demonstração da hegemonia do comentário político do "diz que disse" - que se alimenta do boato, da simplificação e da frase apelativa. Mais do que isso, é um artifício retórico extremamente fácil de usar (não obriga a pensar, apenas a repetir meia dúzia de palavras) e engenhoso, porque é usado com o intuito de colocar Freitas do Amaral no lugar de «ridículo», «lunático» e «assassino de carácter».
(Algo que foi tentado também com Mário Soares, com algum sucesso. A coincidência de terem sido Mário Soares e Freitas do Amaral (dois históricos da vida política portuguesa) a assumir protagonismo na oposição à guerra do Iraque serviu de feição aos defensores do conflito para caracterizarem e troçarem da «senilidade da Velha Europa» e dos argumentos «atávicos» e «desfasados da vida real».)

Em primeiro lugar, a argumentação de Freitas do Amaral não pode ser considerada «anti-americana» (outro dos epítetos da moda), conquanto ela se focaliza na actuação de uma administração concreta, e mesmo que o autor ataque o «american way of life», o que está em causa não é esta forma de vida em si mas sim a sua imposição ou introdução subreptícia (não menos violenta) noutros contextos. Este é um ataque a Bush e à sua administração, um ataque que pretende demonstrar quão perto eles se encontram da pior tradição do autoritarismo e da extrema-direita. Na minha opinião, e ainda que alguns dos seus argumentos me pareçam um pouco forçados, julgo que ele consegue demonstrar que algumas das facetas da Administração Bush são similares a algumas das facetas dos regimes de extrema-direita. E isso é suficiente motivo para alarme e preocupação. O resto é palha para comentadores políticos e para políticos ressabiados.

A «tradição atlantista» da política externa portuguesa é outro sound-byte. Obviamente que a política externa portuguesa passa pelo mar e pelo eixo anglo-americano, e obviamente que passa pelo eixo continental europeu, e obviamente que passa pelo eixo africano e pelo eixo-brasileiro e pelo eixo-timorense e pelo eixo marroquino e pelo eixo ibérico e até pelo eixo das Maldivas. Há claramente oportunidades e prioridades, e diferentes MNE's com diferentes personalidades e feitios decidirão a sua própria estratégia e escolherão linhas preferenciais de actuação. Mas extrapolar que a posição de Freitas do Amaral contra a guerra do Iraque irá colocar em causa a «vocação atlantista» da política externa portuguesa é, sinceramente, um exagero. Uma coisa é certa: não haverá seguidismo e não haverá Cimeiras das Lajes nos próximos quatro anos. Espero que as relações entre EUA e Portugal sigam um rumo de normalidade e elevação - com a ressalva de que é preciso ter coragem de dar a cara e mostrar oposição a políticas que consideramos erradas. E Freitas do Amaral, a seu tempo, soube fazê-lo.

[João]
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