Amar Santana

Tenho tentado compreender a razão da minha profunda antipatia por Pedro Santana Lopes.

Lembro-me daquela frase que o Michael Corleone disse a Vincent no helicóptero ("Padrinho III"): "Não odeies os teus inimigos: isso afecta o teu raciocínio". Já não me recordo se isso foi antes ou depois do Michael ter levado com dez mil rajadas de metralhadora e, tendo miraculosamente escapado, ter uma violenta crise diabética que o pôs a delirar com o pobre Fredo e o arrumou numa cama de hospital. De qualquer forma, sempre que sinto as minhas vísceras a revolverem-se com o que poderia chamar ódio (sim, porque eu, como todos os seres humanos, tenho momentos disso), penso nas sábias palavras do Michael Corleone.

(As saudades que tenho de anti-heróis como o Michael Corleone levam-me a procurar pedaços de sabedoria em todas as personagens do Al Pacino. Depois de ter visto o "Scarface" deixei-me disso: a maior sabedoria nesse filme é quando o Tony Montana, com as ventas cheias de coca e depois de ter sussurrado ao cadáver da irmã que "tudo vai ficar bem", tenta fazer frente a um exército de cinquenta capangas contratados para o aniquilar, empunhando uma super metralhadora-barra-bazuca e dizendo, arrogante e convencido da sua imortalidade, "Say hello to my little friend". Mas deixemos o Montana, e voltemos ao Santana.)

Não chega. Continuo sem saber o que fazer face a esta onda púrpura interior que me atinge quando vejo Santana, ou quando o oiço a falar. Queria, à laia de desabafo, colocar num post as razões desta minha reacção. Afinal, Santana é um ser humano como eu - pertencemos à mesma espécie, à mesma comunidade, à mesma família. Talvez, se conseguir racionalizar o que sinto, poderei reconhecer a sua contingência e deixar outros sentimentos aflorar. A opinião política é feita tanto de sentimentos como de racionalizações, e talvez se eu juntar um pouco de sabedoria cristã (ainda não sei, no entanto, onde a irei buscar) - nesse caso, é até possível que eu possa amar Santana. Amar Santana como quem ama uma criança. Com um amor abnegado. Querer beijar Santana. Abraçar Santana. Passar a mão pelos seus cabelos. Sem exigir nada em troca.

(Suspiro)

Sim, acho que é mesmo a carnavalização da política. O termo pode ter múltiplas acepções e destaco as seguintes:

a) A redução da política a efemérides, a casos, a golpes de asa, a coelhos na cartola, a cartas na manga. Em Santana, a política é fundamentalmente "combate": trata-se de ocupar o espaço mediático e sentimental por forma a ganhar votos e opiniões favoráveis. Santana é (ou era) uma espécie de ser mitológico que não perdia eleições. Não haveria, em princípio, nada contra isso: afinal, nesse aspecto sou gramsciano e acho que a política é de facto luta posicional e contra-hegemónica, mas em Santana esta carnavalização é particularmente perigosa porque

b) A carnavalização significa (e sigo aqui Boaventura de Sousa Santos) a separação abrupta entre os dispositivos e articulações formais (discursos, iniciativas, recursos retóricos - como o recurso a estatística detalhada) e aquilo que se passa e se pensa de facto. Isto coloca Santana na confluência do mais politicamente correcto e convencional ("Assumo toda a responsabilidade por esta derrota eleitoral") e do revolucionário-propagandista-demagogo ("Ao contrário do PS e do CDS não tive o apoio do meu partido"; "É necessário que os órgãos disciplinares do partido se pronunciem sobre as atitudes de certos membros durante a campanha"). Em Santana tudo é tão perfeito e melífluo e melancólico que tresanda a encenação. Quais são os objectivos desta forma de carnavalização? 1) o vale-tudo retórico pretende apelar acima de tudo à reacção emocional e instintiva ("por amor a Portugal"+"guerreiro menino que ama e sonha"+"Deus deu-me oportunidades e desafios e pessoas para amar"+"a morte de Lúcia é um momento impressionante para Portugal"+"enquanto outros gostam doutros colos, nestes colos é que eu estou bem"); 2) esta reacção emocional pretende anestesiar, fazer esquecer por momentos as actuais condições de vida dos portugueses, impedindo ao mesmo tempo que as pessoas façam um verdadeiro julgamento acerca da qualidade dos programas.

c) a ênfase colocada nas "provas dadas" e na "obra feita" pretende acentuar a "competência" do candidato; ora observamos aqui uma vez mais a perniciosidade da carnavalização em Santana. Santana arroga-se da sua "coragem de decidir" e das suas obras e iniciativas emblemáticas: CCB, Rock in Rio, Parque Mayer, palmeiras na marina da Figueira, Cidade Administrativa, etc - que funcionam, como já foi dito, como "trunfos" no "poker político". Quais são os problemas desta postura? 1) a busca da obra emblemática que se possa ver e tocar leva a uma enorme inconsequência e intempestividade nos actos - veja-se o Túnel do Marquês ou o pântano em que ainda se encontra o Parque Mayer - e, noutras ocasiões, a erros crassos (estou a lembrar-me, por exemplo, de quando Santana-Secretário de Estado fez forrar o Forte de Sagres com cimento); 2) ao contrário do que pensa Santana, a política não é "obra", nem muito menos "obra emblemática" - a política é actuação estrutural e estratégica, vendo a sociedade como um todo e não como um conjunto de casos particulares que requerem um determinado número de baldes de areia e tijolos. Assim sendo, a obsessão pela "obra emblemática" funciona como paliativo para a completa ausência de ideias e de estratégias e, muitas vezes, para uma total incompetência.

d) (para terminar) a carnavalização em Santana é demagógica também no sentido em que é marcadamente direccionada para as classes mais desfavorecidas: veja-se o ênfase na "justiça social" da campanha do PSD, as divagações um pouco delirantes acerca da cumplicidade dos "grandes grupos" e da "banca" na queda do governo de coligação - uma colagem robin-hoodesca que pretende criar a seguinte imagem: "Santana é cá dos nossos, ele é guerreiro e rebelde, ele ama-nos e teme Deus, ele quer lutar pela justiça mas ELES (o sistema) puseram-no cá para fora porque ele estava a ameaçar os interesses instalados".

(Suspiro)

Acho que descobri porque fiquei tão feliz quando Santana perdeu tão estrondosamente: porque Santana representa a falsidade em política. E se não há verdade em política (porque não há verdade em si, mas apenas uma construção discursiva que adquire significado e apoio num determinado momento), eu quero em primeiro lugar evitar a "verdade de Santana" - porque mais do que falsa ela é oca, ela é uma máscara, ela existe para camuflar uma constante peregrinação, um brincar com coisas sérias. Um vazio.

Desculpem o fel. Eu já sei que Santana perdeu, "não batam mais em quem já está na mó de baixo". E tal. Espero agora que o meu coração se abra e que Santana possa entrar nele. Eu poderia até perdoar a Santana, quem sabe. Mesmo sem esquecer todas as coisas más que ele fez, eu poderia até usar uma t-shirt a dizer "Amo Santana" - e mostrá-la às câmaras de televisão sempre que marcasse um golo.

[João]
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10:14 da tarde

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