quarta-feira, maio 18, 2005
Aeroporto de Stansted. Noite de espera e insónia forçada pela frente. Ligo o computador, extasio-me uma vez mais com a maravilha que é a tecnologia wireless, e começo a minha habitual leitura blogosférica. Atordoamento. Será que estou _mesmo_ a ler o que estou a ler?

O meu amigo Alexandre, normalmente comedido e razoável na apresentação das suas convicções, e logo a seguir a uma belíssima série de postas cinéfilas, sai-se com isto: http://aboccachiusa.blogspot.com/2005/05/um-post-tardio.html (Atónito, tenho de me ficar pela simples citação...)

Descubro, depois, que o meu (saudoso) professor e camarada José Medeiros Ferreira, também ele, se rendeu a duas seduções: à da blogosfera, e à da Joana Amaral Dias - com direito a elogio e tudo. (http://bichos-carpinteiros.blogspot.com/) Joana Amaral Dias que, ao que o blogue indica, está agora a estudar na Universidade de Chicago(?), a alma mater do movimento neo-conservador. A vida tem, de facto, composições que roçam o irónico.

No Barnabé, cuja leitura normalmente me reconforta - por representar uma certa maneira, plural e crítica, de estar à esquerda - encontro o Pedro Oliveira, por quem tenho estima intelectual e pessoal, numa posição moderadamente... hmmm.. insólita? ortodoxa? em relação à posição norte-americana sobre o Uzbequistão (http://barnabe.weblog.com.pt/privado/comenta.cgi?entry_id=107493)

A acrescer, o Henrique Raposo, no Acidental, continua a desvirtuar as questões interessantes que muitas vezes analisa com os argumentos ideologicamente tingidos que lhe vão sendo hábito... (http://oacidental.blogspot.com/2005/05/esconder-o-gulag-legitimar-anti.html)

No meio de tudo isto, a descoberta, por portas travessas, de uma pérola da blogosfera lusa, plena de erudição e verve: http://bombyx-mori.blogspot.com/

Vá lá, salvou a madrugada...

Acerca do post "Convites"

domingo, abril 17, 2005
Partilho no essencial das preocupações do Daniel face à "pessoalização" e "feudalização" dos meandros do saber em Portugal, fenómenos que se manifestam na preponderância do factor-convite e do factor-conhecimento na definição de painés de conferências e elencos de colaboradores de revistas. Ainda a propósito das conferências, gostaria de chamar a atenção para o carácter muitas vezes cerimonial que estas assumem. Observe-se a panóplia de rituais, protocolos e procedimentos oficializados que rodeiam qualquer iniciativa: os cumprimentos, as hierarquias, os trajes formais, as vassalagens, os «portos-de-honra» e os «coffee-breaks», que fazem com que em Portugal uma conferência seja, acima de tudo, um acontecimento social.

Na verdade, a grande maioria das pessoas vai a estas coisas essencialmente para ver e ser visto, para se integrar no círculo, para se mostrar, para propiciar uma eventual oportunidade.
Uma conferência tem tanto de missa (com os sacerdotes, os acólitos, a homilia, os momentos de crise e purificação) como de adro de igreja em dia de missa (com as conversas, os olhares, as confidências e inconfidências, o habitual «louco»), o que faz com que o debate académico seja relegado para segundo plano e, necessariamente, perca qualidade e envolvência.

Sem querer entrar em derrotismos (até porque, não esqueçamos, os autores deste blog são jovens investigadores lutando pelo seu «lugar ao sol» no sistema), aventuro-me a dizer que fazia falta um pouco de «ética protestante» que mitigasse este excessivo peso do cerimonial. Como organizadores e participantes deste tipo de eventos (e eu já organizei muitos, e sei que o critério de sucesso nunca foi a qualidade do debate mas o número de pessoas na assistência ou o impacto mediático), faríamos bem em repensar naquela máxima da Bíblia (não sei citar de cor) que dizia que «onde quer que estejam dois ou três reunidos por minha causa, eu estarei presente».

Relaxem, portanto, os nós das gravatas, ou deixem ficar as gravatas se preferirem - mas abram a mala dos livros e dos blocos de apontamentos e, já agora, mantenham também em aberto a vontade e a predisposição para aprender.

[João]

Desculpas e abraços

As primeiras pela inconstância da minha participação neste blog, e os segundos dirigidos ao Paulo e ao Daniel, com o desejo que tudo continue a correr às mil maravilhas por Aberystwyth.

[João]

Convites

segunda-feira, março 28, 2005
Antes de mais, um abraço ao João, e um pedido de desculpas ao Paulo pelo meu excessive silêncio. Arranco com um comentári desgarrados e algo visceral, mas hoje não acordei particularmente bem disposto ou inspirado...

Portugal parece ser um pais de convites, em particular nas suas academices. Sempre que recebo um convite para uma conferência, encontro, sessão pública, tertúlia ou novo número de uma revista, fico a pensar como será que os oradores ou autores magicamente aparecem nos seus devidos lugares, comunicações e artigos. Suponho que também convidados, mas de um modo mais pessoal, mais especial, e sobretudo menos público. De facto, agora que me ponho a pensar nisso acho que se podem contar pelos dedos de uma mão as vezes q me foi dada ao conhecimento um call for papers para uma revista científica portuguesa ou uma conferência. E isso preocupa-me porque me parece traduzir uma atitude perante a investigação científica e a produção e discussão do saber que tem pouco de aberto, ou público. E põe-me a pensar segundo que critérios se escolhem certas pessoas para falar ou escrever, quem os escolhe, como os convida, em que termos essas pessoas aceitam.

Se amanhã um qualquer instituto de investigação tivesse de fazer uma conferência sobre o futuro da política externa portuguesa, temo q não apereceriam, nas revistas científicas de referência, nas listas de discussão e blogues de referência, ou nos painéis informativos das universidades convites abertos a quaisquer investigadores que sobre esse assunto quisessem submeter um artigo ou apresentação à consideração desse instituto, ou da comissão organizadora da conferência. Ao invés, o habitual rol de movimentações, convites informais e formais, telefonemas a conhecidos, amigos e ícones académico-mediáticos. "Ouve lá, conheces alguém que possa vir cá falar sobre a política externa portuguesa?" seria, muito provavelmente, mais ouvido nos corredores desse putativo instituto do que "Já viste este artigo submetido ontem pelo investigador y? Parece-te que tem qualidade para fazer parte do painel?".

E gostava que isto começasse a mudar, e se começasse a fazer cada vez mais pela eliminação das duas piores pragas da nossa academia: a pessoalização do saber, com a sua incapacidade para distinguir a crítica às ideias da crítica aos seus autores ou proponentes, e a feudalização do saber, com as suas redes fechadas e (semi-)privadas de suzerania e deferência e dos "old boys".

[Daniel]

Freitas do Amaral comparou Bush a Hitler?

terça-feira, março 15, 2005
No seu artigo de 12 de Setembro de 2002 («A extrema-direita no governo dos EUA», revista Visão) e no seu livro Do 11 de Setembro à Crise do Iraque (Lisboa: Bertrand, 2003), Freitas do Amaral articula argumentação tendo em vista classificar o actual regime dos EUA como uma «extrema direita legal». Reportando-nos ao livro (em especial pp.12-20), invoquemos as razões deste paralelismo:
1- o «nacionalismo exacerbado», que leva ao deprezo e/ou utilização instrumentalista do Direito Internacional;
2- uma perspectiva messiânica de controlo e dominação do mundo, por forma a espalhar o «american way of life»;
3- o desprezo pela ONU e pelas instituições internacionais;
4- o tratamento dado aos talibãs e guerreiros da Al-Qaeda capturados;
5- a criação, por decreto Executivo, de tribunais para julgar e condenar indivíduos suspeitos de práticas terroristas;
6- a promiscuidade entre Estado e religião;
7- a pressão exercida sobre os meios de comunicação social e a instauração de uma verdadeira censura prévia em matérias relativas ao terrorismo, por razões de «segurança nacional»;
8- a condução da política orçamental no sentido de aliviar a pressão fiscal sobre os ricos e a diminuição de despesas sociais;
9- o facto de esta administração se considerar herdeira da tradição «conservadora» americana - esclavagista, elitista e racista.

São estes os critérios que permitem a Freitas do Amaral estabelecer um paralelismo entre a administração Bush e os regimes de extrema-direita que surgiram durante o século XX. E sim, Freitas do Amaral cita o regime nazi (três vezes), mas cita também Salazar (duas vezes), o regime fascista italiano (uma vez), Franco (uma vez) e Pinochet (uma vez). No entanto, reduzir a argumentação de Freitas do Amaral a uma comparação entre Bush e Hitler é um sinal mais da cultura de almanaque, uma demonstração da hegemonia do comentário político do "diz que disse" - que se alimenta do boato, da simplificação e da frase apelativa. Mais do que isso, é um artifício retórico extremamente fácil de usar (não obriga a pensar, apenas a repetir meia dúzia de palavras) e engenhoso, porque é usado com o intuito de colocar Freitas do Amaral no lugar de «ridículo», «lunático» e «assassino de carácter».
(Algo que foi tentado também com Mário Soares, com algum sucesso. A coincidência de terem sido Mário Soares e Freitas do Amaral (dois históricos da vida política portuguesa) a assumir protagonismo na oposição à guerra do Iraque serviu de feição aos defensores do conflito para caracterizarem e troçarem da «senilidade da Velha Europa» e dos argumentos «atávicos» e «desfasados da vida real».)

Em primeiro lugar, a argumentação de Freitas do Amaral não pode ser considerada «anti-americana» (outro dos epítetos da moda), conquanto ela se focaliza na actuação de uma administração concreta, e mesmo que o autor ataque o «american way of life», o que está em causa não é esta forma de vida em si mas sim a sua imposição ou introdução subreptícia (não menos violenta) noutros contextos. Este é um ataque a Bush e à sua administração, um ataque que pretende demonstrar quão perto eles se encontram da pior tradição do autoritarismo e da extrema-direita. Na minha opinião, e ainda que alguns dos seus argumentos me pareçam um pouco forçados, julgo que ele consegue demonstrar que algumas das facetas da Administração Bush são similares a algumas das facetas dos regimes de extrema-direita. E isso é suficiente motivo para alarme e preocupação. O resto é palha para comentadores políticos e para políticos ressabiados.

A «tradição atlantista» da política externa portuguesa é outro sound-byte. Obviamente que a política externa portuguesa passa pelo mar e pelo eixo anglo-americano, e obviamente que passa pelo eixo continental europeu, e obviamente que passa pelo eixo africano e pelo eixo-brasileiro e pelo eixo-timorense e pelo eixo marroquino e pelo eixo ibérico e até pelo eixo das Maldivas. Há claramente oportunidades e prioridades, e diferentes MNE's com diferentes personalidades e feitios decidirão a sua própria estratégia e escolherão linhas preferenciais de actuação. Mas extrapolar que a posição de Freitas do Amaral contra a guerra do Iraque irá colocar em causa a «vocação atlantista» da política externa portuguesa é, sinceramente, um exagero. Uma coisa é certa: não haverá seguidismo e não haverá Cimeiras das Lajes nos próximos quatro anos. Espero que as relações entre EUA e Portugal sigam um rumo de normalidade e elevação - com a ressalva de que é preciso ter coragem de dar a cara e mostrar oposição a políticas que consideramos erradas. E Freitas do Amaral, a seu tempo, soube fazê-lo.

[João]

Re:

quinta-feira, março 10, 2005
Agradeço-te, Paulo, os comentários ao meu post, que só o enriquecem. Suscitam-me algumas observações (necessariamente esquemáticas):

1- concordo, no geral, com o teu ênfase no "capital humano" (embora discorde do termo, que traduz uma visão economicista e instrumental) e nas críticas que colocas à inexistência de um espaço público de discussão, hoje em dia composto por uma rede acomodada de comentadores-catedráticos e catedráticos-comentadores - uma rede fechada, exclusivista, e na qual imperam (salvo excepções) a agitação política, a busca de atenção mediática, a ambição materialista e o desfilar dos rosários de ressentimentos e invejas. Talvez as nossas críticas sejam apenas o resultado do natural ressentimento de jovens outsiders que não conseguiram ainda o seu lugar ao sol, mas parece-me que as críticas que veiculamos são pertinentes: a discussão política em Portugal tem sérios défices, não só nos seus aspectos de profundidade e abrangência, mas também na forma como mobiliza e envolve os sectores da vida social portuguesa.

2- daí a minha crítica ao "centro": porque o centro surge exactamente como esse pântano no qual tudo permanece por discutir, e no qual a vida democrática (que poderia ser tão mais profunda e imaginativa...) se resume a um processo cíclico de selecção e expulsão de aparelhos partidários, que sazonalmente colocam novos nomes nas listas e mudam de visual.

3- A discussão política faz-se através do confronto, e não do consenso. Obviamente, as tomadas de decisão política necessitam de consensos e a vida política necessita de estabilidade. Mas o consenso não pode tornar-se num dogma enquistado, porque ele não é mais do que a expressão contingente de um determinado balanço de forças. O único equilíbrio verdadeiro que se pode alcançar surge do confronto entre duas ou mais forças - algo que não acontece no centro, porque no centro a política resume-se à resolução de problemas no seio de um status quo que é tomado como natural e necessário. Não dizes que um prato está em equilíbrio se ele se encontra poisado no chão.

4- Dizes que é no centro que se encontra a praxis da tradição política. O argumento da tradição é exactamente aquilo que se pretende desafiar. É exactamente contra esta tradição que é necessário deixar o centro - que sempre foi uma metáfora para o imobilismo e conformismo. A política não tem necessariamente de assumir uma divisão estrita direita/esquerda (porque são essas demarcações que possibilitam e alimentam a névoa do centro), mas pode e deve ser visto como uma multiplicidade de lutas e confrontos, uma rede de interacções que, no entanto, não invalida que haja opções políticas claras e escolhas normativas sobre o que somos e o que queremos ser (por exemplo, a inspiração social-democrática vs. a inspiração liberal-democrática).

[João]

O que é o centro?

terça-feira, março 08, 2005
O que é o centro? O que é esse território indeciso, deambulante, onde Cavaco Silva e José Sócrates foram buscar a maioria absoluta? O centro é um grupo de pessoas? O centro é uma ideia? O centro é uma ausência de ideias? Serve este 'post' para levantar um conjunto de questões sobre o centro político em Portugal.

Parece ser no centro que se decidem as eleições. Isto faz com que os dois grandes partidos portugueses (e o pequeno partido que de repente se tornou "de poder") adequem os seus programas e as suas actuações tendo em vista cativar o centro. Nada de radicalismos, nada de "derivas esquerdistas" ou "derivas neo-liberais" - o centro assemelha-se ao "justo meio" aristotélico, à "razoabilidade", a uma espécie de "objectividade científica" - verdade localizada temporalmente e ainda assim absoluta. A disputa eleitoral dos dois grandes partidos assemelha-se aos esforços de um artista de circo que se afadiga mantendo pratos a girar em cima de varas.

Seduzir sem alienar, portanto. Manter uma ilusão de fidelidade ao mesmo tempo que se recorre intensivamente a "piscares de olhos". Mas será o centro uma donzela entediada, de humores imprevisíveis, distante mas constantemente disponível para ser cortejada?

É interessante verificar como este centro se mobiliza sazonalmente para sacudir governantes considerados maus, para promover uma "mudança" dentro dos mecanismos (esotéricos) da "alternância". Onde está a postura crítica do centro que se levanta para expulsar um partido do poder, e que quatro anos depois (ou menos) se levanta para o colocar de novo no poder - e sempre com a convicção de razão, de verdade, de necessidade? Uma mudança deste calibre (que comporta necessariamente uma mudança na concepção do que é "verdadeiro" e "bom") significa para os eleitores portugueses uma nova oportunidade, uma nova esperança - um resquício de sebastianismo, um começar de novo, um lavar de cara, uma folha branca... numa ilusão que é construída para ser desfeita. Durante dias ou semanas após as eleições, até parece que se respira melhor. Fazem-se planos. No fundo, e ainda que nem todos o admitam, há uma espécie de sonho que se instala - uma atmosfera natalícia de antes de abrir os presentes.

Por pouco tempo, infelizmente. Depois, os resultados da mudança não se apresentam como palpáveis e da esperança passa-se rapidamente para o desespero. O centro consome políticos, fá-los desfilar numa voragem que mastiga e deita fora rapidamente. A necessidade portuguesa de construir ídolos só é comparável à necessidade de os destruir, de os restituir ao tamanho médio, comum. Uma das maiores contribuições do Antigo Testamento para o imaginário português são os "pés de barro".

A preponderância deste centro é o resultado da ausência de debate político sério e sustentado. As decisões eleitorais tornam-se reféns de estímulos pragmáticos de rejeição e de aclamação. Nas palavras de José Gil, Portugal é o país da "não-inscrição", da não-memória: o que era mau há uns anos (PS) é agora providencial, ainda que não tenham mudado muito as ideias nem os nomes. Apenas o tempo fornece a roupagem de novidade, e apenas a vontade de começar de novo outra vez, de ter outra oportunidade, explica a aceitação de um novo-que-é-velho. Encontramos aqui similitudes com a voragem consumista própria das sociedades capitalistas avançadas: o processo político e eleitoral avança por períodos de "desenjoamento" e de "relançamento de produtos". A alternância como desenjoamento significa muito simplesmente que não há um projecto político, mas apenas períodos de tolerância e de nojo. Mas algo se passa para além disso, porque o mundo é orientado numa determinada direcção. E para essa acção existem actores, mais ou menos conscientes disso.

Convenhamos que, para além do centro, existem pessoas. Pessoas desempregadas, pessoas com fome, pessoas sem perspectivas de vida, empobrecidas, embrutecidas, condenadas a uma vida de linhas de montagem (a linha de montagem do emprego e a linha de montagem do centro comercial e do lazer empacotado) - em suma, pessoas para as quais a política se tornou uma realidade alheia de tricas e escândalos, à qual não podem prestar mais atenção do que os cinco minutos do telejornal, porque estão demasiado cansadas a tentar sobreviver. No cerne dos estímulos pragmáticos estão pessoas que querem ter uma vida feliz, sossegada, com um mínimo de escolhas e possibilidades nas suas vidas. Não admira portanto que a política se processe (e se afunde) numa sequência de rejeições - como um amante que, de desilusão em desilusão, deixa de acreditar no amor.

Qual é a saída de tudo isto? É necessário, na minha opinião, e por mais que custe, deixar o centro, ou reconstruir o centro. Porque o centro, mais do que evidenciar o vazio de projectos políticos e consagrar a política como navegação de cabotagem (ou pior, como um barco à deriva no meio da tempestade), contribui para a manutenção de um projecto político subreptício, insidioso, e que se instala no mundo globalizado tendo em vista a uniformização e a subordinação dos mecanismos políticos aos mecanismos do lucro, do mercado, do cidadão como cliente, da liberdade consumista, da razão instrumental, da consciência impedida.

É necessário reafirmar as diferenças entre esquerda e direita e, mais do que isso, dizer que uma é melhor que outra. É necessário que essa diferença se assuma ao nível concreto da condução de políticas, que terão de fazer mais do que cálculos de calendarização tendo em vista a gestão da simpatia. No centro há neblina, há esperança difusa e inconstante, há frustração e incapacidade de levar as coisas até um certo patamar de consistência. O politicamente correcto é, muitas vezes, social, cultural e economicamente letal. Dizer que é no centro que há moderação é uma falácia - é o mesmo que dizer que só nos braços maternos há segurança. A política implica coragem e decisão; comporta sempre riscos, mas estes podem ser contidos com sensatez e com espírito pluralista e democrático.

A política necessita de uma certa elevação sobre o pântano do apetite, do humor, do instinto básico. Ao mesmo tempo, a política necessita de uma concepção de que este não é o melhor dos mundos possíveis. Para além do centro, necessitamos de projectos claros que assumam escolhas normativas, de perspectivas desapaixonadas do que somos e perspectivas apaixonadas do que queremos ser. Romain Rolland e Antonio Gramsci falariam de "um pessimismo do intelecto, e um optimismo da vontade".

[João]

Amar Santana

terça-feira, março 01, 2005
Tenho tentado compreender a razão da minha profunda antipatia por Pedro Santana Lopes.

Lembro-me daquela frase que o Michael Corleone disse a Vincent no helicóptero ("Padrinho III"): "Não odeies os teus inimigos: isso afecta o teu raciocínio". Já não me recordo se isso foi antes ou depois do Michael ter levado com dez mil rajadas de metralhadora e, tendo miraculosamente escapado, ter uma violenta crise diabética que o pôs a delirar com o pobre Fredo e o arrumou numa cama de hospital. De qualquer forma, sempre que sinto as minhas vísceras a revolverem-se com o que poderia chamar ódio (sim, porque eu, como todos os seres humanos, tenho momentos disso), penso nas sábias palavras do Michael Corleone.

(As saudades que tenho de anti-heróis como o Michael Corleone levam-me a procurar pedaços de sabedoria em todas as personagens do Al Pacino. Depois de ter visto o "Scarface" deixei-me disso: a maior sabedoria nesse filme é quando o Tony Montana, com as ventas cheias de coca e depois de ter sussurrado ao cadáver da irmã que "tudo vai ficar bem", tenta fazer frente a um exército de cinquenta capangas contratados para o aniquilar, empunhando uma super metralhadora-barra-bazuca e dizendo, arrogante e convencido da sua imortalidade, "Say hello to my little friend". Mas deixemos o Montana, e voltemos ao Santana.)

Não chega. Continuo sem saber o que fazer face a esta onda púrpura interior que me atinge quando vejo Santana, ou quando o oiço a falar. Queria, à laia de desabafo, colocar num post as razões desta minha reacção. Afinal, Santana é um ser humano como eu - pertencemos à mesma espécie, à mesma comunidade, à mesma família. Talvez, se conseguir racionalizar o que sinto, poderei reconhecer a sua contingência e deixar outros sentimentos aflorar. A opinião política é feita tanto de sentimentos como de racionalizações, e talvez se eu juntar um pouco de sabedoria cristã (ainda não sei, no entanto, onde a irei buscar) - nesse caso, é até possível que eu possa amar Santana. Amar Santana como quem ama uma criança. Com um amor abnegado. Querer beijar Santana. Abraçar Santana. Passar a mão pelos seus cabelos. Sem exigir nada em troca.

(Suspiro)

Sim, acho que é mesmo a carnavalização da política. O termo pode ter múltiplas acepções e destaco as seguintes:

a) A redução da política a efemérides, a casos, a golpes de asa, a coelhos na cartola, a cartas na manga. Em Santana, a política é fundamentalmente "combate": trata-se de ocupar o espaço mediático e sentimental por forma a ganhar votos e opiniões favoráveis. Santana é (ou era) uma espécie de ser mitológico que não perdia eleições. Não haveria, em princípio, nada contra isso: afinal, nesse aspecto sou gramsciano e acho que a política é de facto luta posicional e contra-hegemónica, mas em Santana esta carnavalização é particularmente perigosa porque

b) A carnavalização significa (e sigo aqui Boaventura de Sousa Santos) a separação abrupta entre os dispositivos e articulações formais (discursos, iniciativas, recursos retóricos - como o recurso a estatística detalhada) e aquilo que se passa e se pensa de facto. Isto coloca Santana na confluência do mais politicamente correcto e convencional ("Assumo toda a responsabilidade por esta derrota eleitoral") e do revolucionário-propagandista-demagogo ("Ao contrário do PS e do CDS não tive o apoio do meu partido"; "É necessário que os órgãos disciplinares do partido se pronunciem sobre as atitudes de certos membros durante a campanha"). Em Santana tudo é tão perfeito e melífluo e melancólico que tresanda a encenação. Quais são os objectivos desta forma de carnavalização? 1) o vale-tudo retórico pretende apelar acima de tudo à reacção emocional e instintiva ("por amor a Portugal"+"guerreiro menino que ama e sonha"+"Deus deu-me oportunidades e desafios e pessoas para amar"+"a morte de Lúcia é um momento impressionante para Portugal"+"enquanto outros gostam doutros colos, nestes colos é que eu estou bem"); 2) esta reacção emocional pretende anestesiar, fazer esquecer por momentos as actuais condições de vida dos portugueses, impedindo ao mesmo tempo que as pessoas façam um verdadeiro julgamento acerca da qualidade dos programas.

c) a ênfase colocada nas "provas dadas" e na "obra feita" pretende acentuar a "competência" do candidato; ora observamos aqui uma vez mais a perniciosidade da carnavalização em Santana. Santana arroga-se da sua "coragem de decidir" e das suas obras e iniciativas emblemáticas: CCB, Rock in Rio, Parque Mayer, palmeiras na marina da Figueira, Cidade Administrativa, etc - que funcionam, como já foi dito, como "trunfos" no "poker político". Quais são os problemas desta postura? 1) a busca da obra emblemática que se possa ver e tocar leva a uma enorme inconsequência e intempestividade nos actos - veja-se o Túnel do Marquês ou o pântano em que ainda se encontra o Parque Mayer - e, noutras ocasiões, a erros crassos (estou a lembrar-me, por exemplo, de quando Santana-Secretário de Estado fez forrar o Forte de Sagres com cimento); 2) ao contrário do que pensa Santana, a política não é "obra", nem muito menos "obra emblemática" - a política é actuação estrutural e estratégica, vendo a sociedade como um todo e não como um conjunto de casos particulares que requerem um determinado número de baldes de areia e tijolos. Assim sendo, a obsessão pela "obra emblemática" funciona como paliativo para a completa ausência de ideias e de estratégias e, muitas vezes, para uma total incompetência.

d) (para terminar) a carnavalização em Santana é demagógica também no sentido em que é marcadamente direccionada para as classes mais desfavorecidas: veja-se o ênfase na "justiça social" da campanha do PSD, as divagações um pouco delirantes acerca da cumplicidade dos "grandes grupos" e da "banca" na queda do governo de coligação - uma colagem robin-hoodesca que pretende criar a seguinte imagem: "Santana é cá dos nossos, ele é guerreiro e rebelde, ele ama-nos e teme Deus, ele quer lutar pela justiça mas ELES (o sistema) puseram-no cá para fora porque ele estava a ameaçar os interesses instalados".

(Suspiro)

Acho que descobri porque fiquei tão feliz quando Santana perdeu tão estrondosamente: porque Santana representa a falsidade em política. E se não há verdade em política (porque não há verdade em si, mas apenas uma construção discursiva que adquire significado e apoio num determinado momento), eu quero em primeiro lugar evitar a "verdade de Santana" - porque mais do que falsa ela é oca, ela é uma máscara, ela existe para camuflar uma constante peregrinação, um brincar com coisas sérias. Um vazio.

Desculpem o fel. Eu já sei que Santana perdeu, "não batam mais em quem já está na mó de baixo". E tal. Espero agora que o meu coração se abra e que Santana possa entrar nele. Eu poderia até perdoar a Santana, quem sabe. Mesmo sem esquecer todas as coisas más que ele fez, eu poderia até usar uma t-shirt a dizer "Amo Santana" - e mostrá-la às câmaras de televisão sempre que marcasse um golo.

[João]